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Artigo no Correio da Manhã - O que é que a pulseira tem?

Sexta-feira, 23.05.14

É a nova febre entre os seis e os catorze anos. A ideia é fazer as elastic color para depois as vender.

 

As irmãs Brígido não sabem, mas as pulseiras a que têm dedicado o tempo livre nas últimas semanas nasceram nos Estados Unidos, embora só tenham aterrado na Europa (através de Espanha) no início do ano passado. Em Portugal, onde chegaram com ligeiro atraso, é agora difícil encontrar uma criança que não tenha ainda posto os dedos em riste para fazer uma destas pulseiras com elásticos coloridos em miniatura que permitem um sem-número de combinações de cor. Estão por todo o lado.  

 

Mais difícil ainda é encontrar quem não tenha ouvido falar desta febre que encheu os pulsos dos mais novos - e que espalhou os elásticos pelas casas e pelas escolas, e a que os pais já apontam o mérito de os fazer esquecer, por momentos, dos videojogos e das consolas e da inebriante televisão. As Elastic Color foram criadas pela empresa Cra-Z-Art, detida pelo grupo familiar Rose Art Industries, entretanto comprado pela Mattel. É a mesma empresa de onde saíram populares brinquedos, como a Barbie, a Moranguinho, o Bob o Construtor e o Homem-Aranha. Ricardo Araújo Pereira, na sua ‘Mixórdia de Temáticas' chamou-lhes ‘bijutaria borrachosa' e ‘bijutaria com material de escritório'. Na internet não faltam os tutoriais a ensinar a fazer as pulseiras e a moda até já tem página portuguesa no Facebook, com mais de 30 mil fãs apesar de ter sido criada há apenas 15 dias. Nela partilham-se fotos de pulseiras, pedem-se opiniões e dicas e distribuem-se - como manda a lei - gostos e comentários.  

 

COMPRAR OU VENDER?

Ana, Marta e Rita Brígido são irmãs e pediram aos pais os primeiros elásticos depois de perceberem que ficava muito mais barato fazer as pulseiras em casa do que comprar às amigas que já faziam. "Começaram a fazer na escola e a vender e o mínimo que pagávamos por cada pulseira era 0,50 cêntimos. Ora se cada pacote de elásticos custa 0,75 cêntimos nas lojas de chineses e dá para fazer várias, era muito melhor fazer", explica Ana, de 14 anos. Marta concorda e ainda evoca a inflação de que as pulseiras da moda foram alvo quando aumentou a procura. "O amigo de uma amiga minha chegou a vendê-las a dois euros, é imenso dinheiro para uma pulseira", acusa a adolescente de 12 anos. Para já, as irmãs têm feito para encher os próprios pulsos, mas não descartam a ideia de vender, quando a produção passar de pequena para larga escala. Os pais, Carlos e Margarida, apoiam a empreitada. "Não tenho nada a apontar: puxa pela criatividade delas e é um passatempo diferente. Gosto do empenho com que se dedicam a fazê-las e acho muito interessante que tenham decidido começar a fazer para não terem de gastar dinheiro a comprar", acredita Carlos Brígido. Os kits de elásticos podem, no entanto, custar mais do que os 0,75 cêntimos de que falam as irmãs - podem ir até aos oito euros. Depende do sítio onde se compra - as papelarias e algumas lojas de brinquedos também vendem - e das ferramentas incluídas. Os pacotinhos ‘convencionais' trazem centenas de elásticos de borracha (a maioria tem 200), os fechos para unir as duas pontas e, alguns, uma agulha de plástico que ajuda a puxar os elásticos quando os dedos se cansam. Os kits que compram as irmãs Brígido não têm esse ‘ajudante', mas elas não se ficaram: assaltaram a caixa das molas que prendem a roupa na corda e quando querem dar descanso aos dedos usam as molas como substitutas. A loja Toys R Us vende ainda por 18 euros uma máquina que ajuda a fazer um entrelaçado mais complexo do que aquilo que permitem os dedos. As soluções mais baratas são as primeiras a desaparecer das lojas que os vendem e por isso é ver os pais, mandatados pelos filhos, a procurar os tão ansiados elásticos de borracha em tudo o que é quiosque e papelaria.  

 

Na casa de Ana Dinis, os serões são passados a fazer pulseiras mas também - haja imaginação e vontade - "fios, fisgas, catapultas, tudo com os mesmos elásticos". A explicação parece estar no filho mais novo, de nove anos, que arranjou novas utilidades para os elásticos que a irmã, de 11, transforma em pulseiras. "A internet está cheia de vídeos e aqui em casa virou moda. Acho que é o fator novidade e as cores alegres que explicam o sucesso", acredita esta mãe de Leiria. Ana Rafaela, a filha, começou a fazer nas férias da Páscoa, incentivada pela prima, que vive no Algarve. "Já fiz mais de 30 pulseiras. Faço para mim, mas também dou, se me pedirem, e muitas vezes trocamos pulseiras umas com as outras." Só não as vende porque - explica a mãe - "já todos os miúdos fazem, por isso não há muita gente para comprar". Por essa razão, João Pedro, de oito anos, começou a fazer bijutaria para ‘impingir' aos pais, a quem cobra preços entre os 0,50 cêntimos e um euro. "Para já, tenho achado piada, porque é uma forma de ele perceber que é preciso fazer alguma coisa para ter dinheiro, mas qualquer dia já não tenho onde as guardar", brinca a mãe, Paula Santos.  

 

Margarida Cunha, professora de Educação Física no 3º ciclo e ensino secundário, já aderiu à moda. "Sei fazer e já fiz. Aprendi com a minha filha, que tem 30 anos e que também aprendeu com as crianças com quem trabalha. Ensinou-me a mim e à prima de sete anos e foram serões engraçados a fazer pulseiras." Para a professora, o segredo do sucesso das Elastic Color é simples: "É por ser divertido fazer pequenas coisas com as mãos que muito depressa ficam giras, bem feitas, coloridas e também por ser fácil de fazer."  

 

CAIXA: "ENFEITAM-SE COM MATERIAL DE ESCRITÓRIO"  

O humorista Ricardo Araújo Pereira não ‘poupou' as pulseiras da moda na sua ‘Mixórdia de Temáticas' na Rádio Comercial. "Está a suceder algo de muito grave às nossas crianças", diz Ricardo Araújo Pereira. Nuno Markl pergunta: "O quê?" E a resposta que se segue: "As nossas crianças andam a enfeitar-se com material de escritório." O texto em questão tinha como título ‘Temos de Conversar' e muito provavelmente terá sido inspirado nas filhas de Araújo Pereira. Os elásticos também devem ter invadido a sua casa.

 

Publicado pelo Correio da Manhã em 18 de Maio.
Consultar aqui o artigo original

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